Metodologia de pesquisa à Inspetor Closeau, parte 1 (ou “de esbarrão em esbarrão, a gente chega nas fontes”): ligo a TV por puro acaso, minutos antes de dormir, e diante de mim tenho Zé Pedro dos Xutos & Pontapés e João Pedro Pais (cantor pop de sucesso que andou fazendo as primeiras partes do Bryan Adams pela Europa afora) emitindo opiniões sobre os artistas e bandas portugueses que cantam em inglês. Zé Pedro diz não se lamentar pelo fato de a opção pelo canto em português ter diminuído as chances de os Xutos embarcarem numa carreira internacional, embora acredite num potencial de difusão ibérico para a música portuguesa contemporânea; João Pedro Pais, por sua vez, começa afirmando que “cada um canta na língua que quer, com a língua que tem”, para depois arrematar: “Há músicas nas discotecas que dizem I Love You L Love You I Love You e põem a malta toda a dançar. Agora coloque um português a dizer amo-te amo-te amo-te e as coisas ficam mais complicadas”.
No mais, como dizia o meu avô: “E não é?”.
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Por aqui, costuma-se dizer que os meses de julho e agosto correspondem à silly season televisiva, que é quando as emissoras despejam na grade uma série de programas inócuos destinados a desanuviar a cabeça da galera durante o verão. Basta dizer que o maior sucesso desta última temporada foi um game show da SIC chamado “Salve-se quem puder”, cujo epicentro dramático, por assim dizer, era aquele desafio made in Endemol que no programa do Faustão durava se tanto meia hora e recebia a alcunha de “De cara no muro”.
Para aqueles cujas necessidades televisivas vão um pouco além de testemunhar celebridades portuguesas vestindo macacões colantes sendo atiradas à água, havia o “5 para a meia-noite”, um talk show muito do bacaninha que, infelizmente para mim, também entrará em recesso no final de setembro. O programa ia ao ar de segunda a sexta na RTP2, o canal generalista mais próximo de um canal a cabo que há por estas bandas, e a exemplo do saudoso “Jô Soares onze e meia”, também nunca entrava no ar na hora prometida. Cada dia era pilotado por um apresentador diferente, e a dinâmica do programa misturava entrevistas, números musicais e esquetes de humor, tudo permeado por uma dose de anarquia que raramente se vê na TV portuguesa. Com a graça de Deus, o politicamente correto passava longe do “5 pra meia noite” – nem a inglesinha Maddie, desaparecida há dois anos numa praia do Algarve, era poupada das piadas ácidas dos apresentadores. E havia uma autoconsciência pop atravessando todo o programa, manifesta no uso que era feito do Twitter, dos blogs e da internet de uma forma geral, que muito me agradava. Pois é. Vou sentir saudades particularmente do Trivial Parvoíce, do Ódio de Estimação, dos telefonemas “Eu amo você” do Nilton, das boinas do Boinas e da Filomena Cautela, pelo conjunto da obra. Boiou? No Youtube é possível encontrar alguns vídeos do programa. E que venha a reentrée.
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Se há dois artistas que nos anos 90 simbolizaram uma certa música portuguesa “moderna” – ou seja, fora do âmbito do fado e do cançonetismo – com vastas ambições de internacionalização, estes foram o Madredeus e Pedro Abrunhosa. Embora por vias diferentes – o Madredeus partindo da tradição para transcendê-la, Abrunhosa flertando com o acid jazz para chegar num tipo muito particular, e muito português, de crônica político-afetiva urbana – tanto um quanto o outro me pareciam extremamente representativos de um Portugal que se abria para o mundo e entrava com os dois pés na sociedade de consumo e na cultura midiática.
Curioso como a virada do milênio revelou-se ingrata com ambos: depois da saída de Tereza Salgueiro, o Madredeus segue com Pedro Ayres Magalhães aplicando sucessivos choques desfibrilatórios ao falecido, primeiro adotando um formato pop-sinfônico (no álbum Metafonia, o primeiro com A Banda Cósmica), e agora enveredando por um caminho new age de gosto algo duvidoso (o que tem rendido ao último disco do Madredeus, “A nova aurora”, umas belas bordoadas da crítica local).
De Pedro Abrunhosa, o mínimo que se pode dizer é que parece ter perdido a capacidade de provocar. Seu último concerto, dentro do projeto Lisboa ao Parque, arrastou um público muito aquém do esperado para um sujeito que, há não menos de cinco anos, era visto pelo mercado fonográfico luso como a salvação da lavoura. Quem viu o Parque Mayer transbordando de gente durante a apresentação do Da Weasel sabe do que eu estou falando. Com novos músicos de apoio (depois de, com o perdão do trocadilho infame, ter exorcizado o Bandemónio), Abrunhosa parece indeciso entre seu glorioso passado soul-funk e um incerto futuro baladeiro-lamecha. As canções antigas menos empolgam quanto mais se afastam dos arranjos originais, e as novas não empolgam porque... porque não empolgam, ué. Tudo isso, somado à postura do cantor no palco, exalando pose como se ainda estivesse na crista da onda, gera um punhado de momentos constrangedores. O maior de todos foi, sem dúvida alguma, durante a última música do show, quando Abrunhosa começou a chamar criancinhas para o palco e encerrou o concerto ao piano com uma menina de quatro anos e laçarote na cabeça sentada no seu colo. Um gesto tão singelo, cometido logo após uma canção intitulada “Talvez foder”, vamos combinar que ficou esquisito à beça...
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Eis que meu post sobre Roberto Leal revelou-se um insuspeito sucesso de público. A todos os que deixaram comentários, meus mais sinceros agradecimentos e alguns pê-ésses esclarecedores: a votação on line para Roberto Leal mudar de nome não foi inventada por ninguém que não o próprio departamento promocional do artista. É uma estratégia para criar um novo posicionamento da “marca” Roberto Leal junto a um público que tinha certa resistência ao cantor. Posso estar falando besteira, mas tenho lá minhas dúvidas se uma rádio prestigiada (nas palavras do Victor) como a Antena 1 daria espaço ao Roberto Leal dos primeiros discos, por exemplo. É no sentido da conquista dessas outras fatias de mercado que a iniciativa de marketing que cerca o lançamento de “Raiz/Raiç” se dirige.
Last but not least, em nenhum momento foi a minha intenção denegrir ou menosprezar a imagem do Roberto Leal. Apenas invoquei algumas memórias de infância para dar um sabor extra ao post, e se forcei a barra nas ironias, bem, a maior prova de que Deus também possui senso de humor foi o fato de Ele ter criado os ornitorrincos.
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E o prêmio de letra mais genial da nova vaga da música pop portuguesa vai para “Teimoso”, de Samuel Úria.
Eu nunca fui do prog rock
Eu já nasci depois do PREC
Tarde demais pra proto-punk
Branco demais pra ser do rap
Eu nunca fui do prog rock
Sou neo-retro redneck
Nasci num antro só de enters
Já não sei carregar no rec
Eu nunca fui do prog ro-o-ock
Só se o prog rock for o Beck
Nasci quando Bob renasceu
E o Tom gravou o “Heartattack”
Eu nunca fui do prog rock
Já nem sei carregar no rec
Rewind corre pros meus ouvidos
Fast fowards fora do meu leque
Teimoso que nem um moleque
Teimoso que nem um moleque
Teimoso que nem um moleque
Teimoso que nem um moleque