quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Renovação? Onde?

Na última semana de outubro, o programa matinal Bom dia Brasil da Rede Globo de Televisão levou ao ar uma série de reportagens sobre as novas configurações da música pop pelo mundo. O primeiro episódio, conduzido pelo jornalista Pedro Bassan (correspondente da Globo em Lisboa faz pelo menos dois anos) foi dedicado à música portuguesa. Quando eu soube que a Globo estaria deslocando um jornalista para ficar sediado na capital portuguesa, a primeira coisa que me ocorreu foi questionar se e em que medida essa presença seria traduzida em reportagens que fugissem do óbvio e do senso comum, e nos revelassem aspectos pouco usuais da vida e da cultura em Portugal. Pelo que a tal matéria sobre a nova música portuguesa me permitiu visualizar, começo a acreditar que a Globo só mandou o Bassan pra Lisboa porque enviá-lo pra outro lugar da Europa deve ter ficado muito acima do orçamento. A quantidade de estereótipos que transbordam da reportagem é tão grande que me fez pensar no que diabos o jornalista ficou fazendo em Lisboa durante esse tempo todo, a ponto de, sendo encarregado de produzir uma matéria sobre a renovação da música portuguesa, tenha escolhido falar apenas e unicamente sobre... fado.

Não estou negando que o fado é um formato musical a partir do qual várias dinâmicas de identidade cultural se articulam na Terrinha, e que o mesmo tenha passado por um considerável processo de oxigenação ao longo das duas últimas décadas. É óbvio que não dá pra tecer qualquer reflexão sobre música portuguesa e passar ao largo do fado: restringir-se ao fado, contudo, é perder a dimensão da pluralidade que constitui a música lusa contemporânea. Depois, quando fazem uma matéria sobre música brasileira e falam apenas do Carnaval, a gente fica chateado...

E o pior da supracitada matéria não é ter se limitado ao fado: é tê-lo feito a partir de variados chavões sobre a tristeza, a saudade, a melancolia das ruas de Lisboa e incontáveis evocações daquilo que chamo “imaginário navegante”, o que significa pensar Portugal a partir das narrativas dos descobrimentos, como se isso até hoje pautasse o modo como os portugueses se inserem no mundo. Nesse sentido, o momento mais extremo da coisa toda é quando o repórter fala que “o país nunca se recuperou da morte de Amália Rodrigues”, como se você pisasse em Lisboa e fosse recebido por multidões de carpideiras lamentando o falecimento da fadista. Um pulinho na exposição que o CCB organizou ano passado a propósito dos dez anos de morte de Amália teria bastado para que o repórter percebesse a diferença entre “lamentação” e “celebração”, mas isto deixa pra lá. Logo em seguida, vem a declaração de que o neo-fadista António Zambujo seria uma espécie de “maior artista de Portugal na atualidade”, o que, sem desmerecer o belíssimo trabalho do cantor alentejano, me pareceu um bocado exagerado. Em termos de projeção midiática no âmbito do fado, eu acho que a Carminho ou mesmo a Ana Moura são muito mais visíveis nesse sentido.

Para ninguém dizer que estou pegando pesado, o trecho da reportagem no qual se tenta discorrer sobre as conexões entre fado e salazarismo até que é bastante consistente, embora haja alguns equívocos quando ela sustenta a batida tese de que o regime do Estado Novo promovia o fado como música nacional (Salazar sempre foi mais ruralista do que fadista, por assim dizer, e o fado, enquanto música urbana de origem marginal, nunca foi consenso entre os altos escalões culturais da ditadura, mas aí já seria exigir demais pruma matéria de oito minutos).

Isto posto, sugiro iniciarmos uma mobilização on line. Que tal #vainaZDB,bassan ?

3 comentários:

Gustavo Alonso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gustavo Alonso disse...

putz!
mas a pior parte é mesmo aquela em que o Bassan fala que o fado nasceu "de uma saudade da janela, da tristeza de uma porta, da melcancolia da rua..."! Putz! Pediu pra ser brega e entrou trinta vezes na fila! E ainda por cima o cara é assalariado para nao fazer nenhuma pesquisa, mas para fazer poesia de quinta! não dah né! ahahhahhaha! E, além de tudo, não consegui entender a presença do Chico no final! ahaha

Tiago M disse...

A presença do Chico pra mim tem a ver com, tipo, "vamos repisar o estereótipo de que a música brasileira dá as cartas em Portugal".
Menos, né? Beeem menos, eu diria.
A coisa que mais me irrita é essa associação entre Lisboa e tristeza. Quem sustenta esse discurso ou nunca esteve lá ou possui sensibilidade zero.