por Gustavo Alonso
Nesses dias estava eu vasculhando a internet e procurando uma rádio de música do sertanejo universitário. Quando finalmente selecionei uma rádio ouvi uma música cantada por duas mulheres: era a dupla Ana Elisa e Mariana, ainda pouco conhecida mesmo nos meios sertanejos. Primeiramente chamou-me atenção o fato de ser uma dupla de mulheres e não de homens. Logo depois a música em si me chamou atenção.
A música que tocava chamava-se "Google" e tinha o eloquente refrão: "me joga no Google/ Me chama de pesquisa/ e diz que eu sou tudo o que vocé procurava". Me encantei com o tom descompromissado da canção, com o sotaque das meninas e com o frescor, irresponsabilidade e pouca pretensão de Ana Elisa e Mariana. Aliás o que me encantou foi, além do trabalho das meninas, a possibilidade na música sertaneja de se ouvir coisas "novas" apenas ligando o rádio, coisa que na MPB é bem dificil nos dias de hoje.
Fui procurar o site das meninas: http://www.anaelisaemariana.com.br/. Nele ouvi outra canção ainda mais ingênua e irresponsavel, que pelas mesmas razões me encantou: "Cartão de Crédito".
Quer mulher bonita, cheirosa, gostosa
Então não economiza não
Libera logo esse cartão...
Não tem essa de mulher feia ou mulher bonita
Pra ficar bem na fita, tem que se cuidar
O que existe é mulher cuidada
E mulher mal acabada que não tem com quem contar
Investimento é fundamental
Quer uma mulher que paga pau
Para de economizar...
Vai ficar melhor que modelo
Ou que mocinha de novela
Mulher vai ficar tão bela
Libera logo esse cartão...
Ando ouvindo e cantando esta canção espontaneamente em vários momentos, prática bastante típica da música pop. Além de fácil, a canção é grudenta e a temática, aliada ao sotaque das meninas soa engraçado. Lembrou-me uns amigos de Araraquara, que são exatamente desse jeito e, diga-se de passagem, são adeptos da música sertaneja. Não duvido que já estejam ouvindo Ana Elisa e Mariana.
Mas não se pode deixar de se perguntar sobre o papel da mulher na relação amorosa atual... A mulher que quer o cartão de crédito é indice da mulher submissa? A canção é anti-feminista? Talvez... Mas o que me chamou atenção, depois do choque inicial da mulher que quer o cartão de crétido, foi outra coisa...
O cartão de crédito do marido/namorado é usado para formatação do corpo, para reconstrução do look, para incremento dos afetos ("gostosa, cheirosa"). Alias na música fica claro que há uma pressão para a reconstrução dos corpos, para a reinvenção de si ("Pra ficar bem na fita, tem que se cuidar/ O que existe é mulher cuidada/E mulher mal acabada que não tem com quem contar/ Investimento é fundamental"). A lógica da visibilidade da sociedade atual, como aponta Deleuze, parece nos impor/propor uma eterna reinvenção de si. A cirurgia plástica, as alterações dos perfis do orkut, a multiplicidade de avatares (orkut, facebook, twitter), a virtual extinção da velhice "tradicional"; tudo isso parece apontar para a compulsão pelo novo. A reconstrução de si parece ser tônica da ingenua canção sobre uma prática atual bastante evidente.
Tenho uma amiga alemã que acha um horror como as mulheres brasileiras estão sempre se "turbinando". Ela acha uma supervalorização da exterioridade e uma submissão ao gosto masculino. No entanto acho que esta opinião em parte moralista não dá conta da problemática.
Não dá conta da compulsão de sermos vários na sociedade atual, de termos que contentar a diversidade e a multiplicadade da individualidade que se tornou não apenas fragmentária, mas também diversa de si própria. Há certos elementos de controle nessa prática, claro. Mas parece haver uma possibilidade, apesar de todas as adversidades, de nos reconstruirmos como quisermos. O dificil continua sendo o que se pode querer? O que é possivel querer? Claro que o cartão de crédito pode ser o começo do endividamento na compulsão de ser eternamente diferente... Mas e quando a compulsão de ser diferente se voltar contra o cartão de crédito? Não vejo porque isso não pode ser possivel, apesar de todas as adversidades...
ou não! hahahaahah
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
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Um comentário:
Gustavo, Adorei a dica. Super descoberta, esta! E me lembrou a Tati Quebra_barrco, do funk. Não na sonoridade mas nas temáticas.
Simone
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